Arcano Lúcido

Arcano Maior · nº 12

O Enforcado

Carta O Enforcado, ilustração de Pamela Colman Smith, 1909
Pamela Colman Smith, 1909 · domínio público

pausa · rendição · inversão de perspectiva · sacrifício

elemento:
água
atribuído retroativamente
letra-hebraica:
Mem (מ)
atribuído retroativamente
planeta:
Netuno
atribuído retroativamente

Leitura tradicional

O Enforcado — também chamado O Pendurado (do italiano L’Appeso) — mostra um homem suspenso de cabeça para baixo por um pé. A forca é um cruzeiro em forma de T (a cruz Tau) de madeira viva, com folhas; a perna livre cruza atrás da outra formando um “4”; as mãos ficam atrás das costas.[fonte]

O detalhe que a tradição faz questão de marcar: o rosto não sofre. Waite descreve “profundo enlevo, não sofrimento”, uma auréola de luz em torno da cabeça, e resume a figura como “vida em suspensão, não morte”. Ele recusa a leitura de martírio que autores anteriores davam à carta.[fonte]

Daí os sentidos tradicionais: pausa, rendição voluntária, sacrifício, suspensão do julgamento e a troca de ponto de vista. Waite ainda lista sabedoria, intuição, adivinhação e profecia entre os significados.[fonte]

Como usar

“Ficar suspenso, de cabeça para baixo, revela outra vista.”

A carta é um convite a olhar a própria situação de fora, como quem observa da parede — em vez de vivê-la em primeira pessoa. Em experimentos, analisar uma experiência difícil a partir desse ponto de vista distanciado reduz a reatividade emocional e leva a um raciocínio mais ponderado do que mergulhar nela em primeira pessoa. O gesto de “virar de cabeça para baixo” é uma deixa concreta para adotar essa distância: descreva o impasse na terceira pessoa, ou como se fosse de outra pessoa, e veja o que muda.[fonte]

“A carta pede uma pausa, uma rendição voluntária — parar de empurrar.”

Diante de um problema travado, “render-se” aqui quer dizer parar de forçar. Uma revisão de dezenas de estudos encontrou um efeito de incubação: interromper a tentativa e voltar depois aumenta, em média, a chance de resolver — especialmente em problemas abertos, de muitas saídas possíveis. A suspensão da carta é permissão para largar o problema por um tempo, em vez de insistir na mesma abordagem.[fonte]

Repositório

Todos os significados — o repertório completo, se você quiser descer.

O sacrifício e o que você já investiu

“A carta fala de sacrifício, de abrir mão de algo.”

O “sacrifício” pode virar uma pergunta útil: estou seguindo com isto pelo que ainda vale, ou só pelo que já investi? A tendência de continuar um projeto por causa do dinheiro, do tempo ou do esforço já gastos — mesmo quando parar seria melhor — é a falácia do custo afundado. Nomear o que se “sacrificaria” ajuda a separar o investimento passado (que não volta) do valor futuro (a única coisa que a decisão deveria pesar).[fonte]

A serenidade e a auréola

“O rosto é sereno, cercado por uma auréola; a pausa é uma aceitação.”

A calma da figura sugere reler a situação em vez de brigar com ela. Mudar o sentido que se dá a um evento — o que a psicologia chama de reavaliação cognitiva — altera a carga emocional dele, sem mudar o fato. A carta modela esse movimento: antes de reagir, perguntar “que outra leitura cabe aqui?”. (Isto é uma técnica de reflexão, não terapia nem tratamento.)[fonte]

Puro místico

tradição · sem correlato verificável

Para Waite, a carta “expressa a relação, num de seus aspectos, entre o Divino e o Universo”, apontando para um “grande despertar” e um mistério sagrado — um sacrifício com sentido cósmico, não apenas psicológico.[fonte] Os significados de intuição, adivinhação e profecia que a tradição atribui à carta também moram aqui: são leituras herdadas, sem correlato verificável. Ficam registradas como tradição, sem uso prometido.

Mostrar leitura invertida

Na tradição, a carta invertida costuma ser lida como resistência a soltar: adiar a pausa, arrastar a situação, ou o sacrifício que virou martírio sem propósito. Waite associa a posição invertida ao egoísmo.[fonte]

Como prompt de reflexão — não previsão —, invertida serve para checar o custo oposto ao da carta em pé: onde recusar a pausa está saindo caro? ou estou mantendo um sacrifício só pelo que já investi nele? — a mesma armadilha do custo afundado.[fonte]

Fontes
  1. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
  2. Edgerton, S. Y. Pictures and Punishment: Art and Criminal Prosecution during the Florentine Renaissance. Ithaca: Cornell University Press, 1985.
  3. Sio, U. N. & Ormerod, T. C. “Does incubation enhance problem solving? A meta-analytic review.” Psychological Bulletin 135, n. 1 (2009): 94–120.
  4. Kross, E. & Ayduk, O. “Making Meaning out of Negative Experiences by Self-Distancing.” Current Directions in Psychological Science 20, n. 3 (2011): 187–191.
  5. Arkes, H. R. & Blumer, C. “The Psychology of Sunk Cost.” Organizational Behavior and Human Decision Processes 35, n. 1 (1985): 124–140.
  6. Gross, J. J. “Emotion regulation: Affective, cognitive, and social consequences.” Psychophysiology 39, n. 3 (2002): 281–291.

História da carta

Para a história geral do baralho — de onde vem o tarô, quando virou adivinhação — veja A história do tarô. Aqui a história é só desta carta: de onde vem a sua imagem e como o seu sentido mudou.

O traidor pendurado: a imagem e os nomes

A postura da carta — um homem suspenso de cabeça para baixo por um pé — não é invenção esotérica. Entre os séculos XIII e XVI, cidades do norte da Itália encomendavam pitture infamanti (“pinturas de infâmia”): retratos de traidores, fraudadores e devedores foragidos, pintados nos muros dos prédios públicos para difamá-los quando não se podia executá-los em pessoa. Pendurar a figura de cabeça para baixo por um pé era o formato típico para o traidor que trocava de lado. Em Florença, um pintor fez tantas dessas imagens que ficou conhecido como Andrea degli Impiccati — “Andrea dos Enforcados”.[fonte]

Os nomes antigos da carta expõem essa origem: nos baralhos italianos do século XV ela era L’Impiccato (“o enforcado”) ou Il Traditore (“o traidor”); na França firmou-se como Le Pendu; e o italiano moderno a devolveu como L’Appeso (“o pendurado”).[fonte] A imagem que ela herdou é a de uma vergonha pública concreta, não a de um santo em prova.[fonte]

A leitura de “Prudência” (Court de Gébelin, 1781)

Por quase quatro séculos a carta foi só uma peça de jogo. Quando o tarô passou a ser lido como símbolo, no fim do século XVIII, esta carta ganhou uma interpretação curiosa. Em 1781, no volume VIII de seu Le Monde primitif, Antoine Court de Gébelin propôs que ela deveria representar a Prudência, uma das quatro virtudes cardeais: para ele, a alegoria original mostraria um homem em pé, com um pé no chão e o outro suspenso, examinando onde pisar com segurança (pede suspenso) — e um fabricante de cartas, sem entender a cena, a teria redesenhado como um homem pendurado pelos pés.[fonte]

É uma leitura da época, não a origem da imagem: Court de Gébelin partia da tese de uma origem egípcia do tarô, que a pesquisa histórica posterior não sustentou.[fonte] Para esta carta, o rótulo “Prudência” marca o momento em que ela deixou de ser peça de jogo e passou a ser lida como símbolo.

A Golden Dawn: Mem, água e “o Espírito das Águas Poderosas”

Quando a Ordem Hermética da Golden Dawn (fundada em 1888) montou sua tabela ligando cada trunfo a uma letra hebraica, a um elemento e a um caminho da cabala, O Enforcado recebeu a letra Mem, o elemento água e o título “O Espírito das Águas Poderosas”.[fonte] São atribuições acrescentadas à carta séculos depois de sua origem — não propriedades que ela sempre teve.

▸ Nota: por que Mem = água

Mem é uma das três “letras-mãe” do alfabeto hebraico. Num texto místico antigo, o Sefer Yetzirah, essas três letras são associadas a três elementos — e Mem cabe à água.[fonte] A Golden Dawn apenas encaixou esse par já existente na sua tabela de cartas. Por isso “água” aqui vem por meio da letra, não de algo visível na ilustração.

1909: a virada de Waite e Pamela Colman Smith

A leitura de “sacrifício sereno” que hoje domina a carta é ainda mais recente. No Rider-Waite-Smith (1909), o rosto da figura aparece calmo, cercado por uma auréola de luz.[fonte]

Waite descreve a carta como “vida em suspensão, não morte”, e recusa de propósito a leitura de castigo e de martírio que autores anteriores lhe davam.[fonte] É essa virada — da infâmia para a pausa voluntária e a troca de ponto de vista — que fixa o sentido “espiritual” que a carta carrega até hoje.

Uma adição moderna: Netuno

Netuno é a camada mais recente. O planeta só foi descoberto em 1846 — tarde demais para a carta renascentista e até para a Golden Dawn, que usava apenas os sete planetas clássicos e não atribuía planeta algum a Mem, por ser uma “letra-mãe” ligada a um elemento.[fonte]

No século XX, o ocultista norte-americano Paul Foster Case incorporou Netuno à carta, ligando o planeta à letra Mem. O próprio Case observa que, nos livros antigos, nenhum planeta é atribuído a essa letra, e que a correspondência com Netuno vem da astrologia moderna — ou seja, ele mesmo reconhece a atribuição como recente.[fonte] Netuno, deus das águas, combina com o tema aquático que a carta já tinha herdado da Golden Dawn, mas chegou por último. É a última camada de uma imagem que começou como um traidor pintado num muro.

Fontes
  1. Decker, R., Depaulis, T. & Dummett, M. A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. Londres: Duckworth, 1996.
  2. Edgerton, S. Y. Pictures and Punishment: Art and Criminal Prosecution during the Florentine Renaissance. Ithaca: Cornell University Press, 1985.
  3. Court de Gébelin, A. “Du Jeu des Tarots.” In: Le Monde primitif, analysé et comparé avec le monde moderne, vol. VIII. Paris, 1781, p. 365 e seguintes.
  4. Regardie, I. The Golden Dawn: An Account of the Teachings, Rites and Ceremonies of the Hermetic Order of the Golden Dawn. Chicago: Aries Press, 1937–1940. (Documento “Book T”, que dá a cada trunfo sua letra, elemento e título.)
  5. Sefer Yetzirah (Livro da Formação), cap. 3. Trad. e comentário de Aryeh Kaplan, Sefer Yetzirah: The Book of Creation. York Beach: Samuel Weiser, 1997.
  6. Waite, A. E. The Pictorial Key to the Tarot. Londres: William Rider & Son, 1911.
  7. Case, P. F. The Tarot: A Key to the Wisdom of the Ages. Richmond: Macoy Publishing, 1947.