A história do tarô
Do jogo de cartas italiano do século XV ao Rider-Waite-Smith de 1909 — separando o que é documentado do folclore esotérico.
Um jogo, não um oráculo
O tarô surge no norte da Itália na primeira metade do século XV. A ideia foi acrescentar a um baralho comum uma quinta série de cartas ilustradas — os trionfi, ou trunfos — para jogar um jogo de vazas parecido com os que ainda existem hoje. A primeira menção documental a carte da trionfi está nos registros da corte de Ferrara em 1442, e os baralhos mais antigos que sobreviveram — como os Visconti-Sforza, pintados à mão por Bonifacio Bembo para a corte de Milão em meados do século — vêm desse mundo: entretenimento aristocrático, não profecia.[fonte]
O tema do “triunfo” não era aleatório. Ele ecoava um gosto renascentista pelas procissões triunfais e pelo poema I Trionfi, de Petrarca — foi a historiadora Gertrude Moakley quem primeiro argumentou que os trunfos ilustram essa espécie de desfile de figuras alegóricas que “triunfam” umas sobre as outras.[fonte]
Por mais de três séculos o tarô foi, acima de tudo, um jogo — espalhou-se pela Itália e pela França, e no século XVIII a versão hoje conhecida como Tarô de Marselha padronizou boa parte das imagens que reconhecemos. Em nenhum documento desse longo período ele aparece como ferramenta de adivinhação.[fonte]
▸ Nota: de onde vem a palavra 'tarô'
No começo, esses baralhos eram chamados de carte da trionfi (cartas de triunfo). A palavra tarocchi (no singular, tarocco) só aparece por volta de 1505, e sua origem é genuinamente desconhecida — as etimologias propostas ao longo dos séculos são todas palpites. “Tarô” é a forma francesa. Vale registrar porque o nome de sonoridade misteriosa alimentou parte da mística: só que o mistério aqui é linguístico, não oculto.[fonte]
A primeira lista das cartas veio de um sermão
A lista mais antiga que sobreviveu dos 22 trunfos, já em ordem, não está num grimório nem num tratado esotérico — está num sermão. Um frade anônimo, em algum momento entre cerca de 1470 e 1500, escreveu os Sermones de ludo cum aliis para condenar os jogos de dados e de cartas: chamou as imagens dos triunfos de demoníacas e chegou a atribuir a invenção do jogo ao próprio Diabo.[fonte]
A ironia vale ser saboreada: a evidência documental mais antiga da estrutura do tarô foi produzida por alguém tentando acabar com ele. E a ordem que o frade listou é essencialmente a mesma que se usa até hoje.[fonte]
Quando o tarô virou adivinhação
A virada é tardia e tem nome e data. Em 1781, o erudito francês Antoine Court de Gébelin publicou um ensaio afirmando que as cartas preservavam a sabedoria secreta do Egito antigo — o “Livro de Thoth”.[fonte] É aqui que nasce o mito egípcio. Vale marcá-lo como o que é: folclore. A alegação é anterior à decifração dos hieróglifos por Champollion (1822), ou seja, era pura especulação, e nenhuma evidência liga o tarô ao Egito.
Curiosamente, a ideia de ler as cartas nasceu no mesmo volume: um ensaio do Conde de Mellet, publicado ali junto, foi provavelmente o primeiro a propor usar o tarô para adivinhação e a associá-lo às letras hebraicas. O mito egípcio e a prática da leitura vieram ao mundo juntos, no mesmo livro.[fonte]
Pouco depois, Etteilla (pseudônimo de Jean-Baptiste Alliette) organizou a prática e criou os primeiros baralhos pensados especificamente para a cartomancia. A leitura de tarô, como atividade, é filha do fim do século XVIII — não do Renascimento.[fonte]
▸ Nota: por que o mito egípcio pegou tão bem
No fim do século XVIII a Europa vivia uma egiptomania, e atribuir origem antiga a um objeto lhe dava prestígio imediato. O mito sobreviveu porque é atraente — uma origem misteriosa vende melhor do que “jogo de salão do Renascimento”. Reconhecer isso não diminui o tarô; apenas situa o que ele é.[fonte]
As correspondências grudadas depois
No século XIX, Éliphas Lévi associou o tarô à Cabala e às letras hebraicas; e a Ordem Hermética da Golden Dawn, fundada em 1888, sistematizou um conjunto de correspondências astrológicas e cabalísticas.
Um ponto que interessa ao leitor cético: essas correspondências foram atribuídas retroativamente — não faziam parte do tarô renascentista. É exatamente por isso que, no dicionário deste site, elas aparecem sinalizadas como “atribuído retroativamente”: a intenção é deixar visível o que é herança do jogo original e o que foi acrescentado séculos depois por uma escola específica.[fonte]
1909: o Rider-Waite-Smith
O baralho que virou o padrão moderno saiu em 1909, publicado pela editora Rider. Foi concebido por A. E. Waite, membro da Golden Dawn, e ilustrado por Pamela Colman Smith. O que o tornou padrão: ele deu a todas as 78 cartas cenas narrativas completas — inclusive os arcanos menores, que em baralhos como o de Marselha traziam apenas arranjos repetidos do naipe (cinco espadas eram só cinco espadas desenhadas).[fonte]
Aqui cabe uma correção que costuma passar batida, e que interessa a quem gosta de precisão: o RWS não foi o primeiro a ilustrar os menores. O baralho italiano Sola Busca, de 1491, já fazia exatamente isso — quatro séculos antes. Fotografias do Sola Busca estavam expostas no Museu Britânico desde 1907, e Smith quase certamente as estudou: a semelhança de algumas cartas (o Três de Espadas é o exemplo clássico) é inconfundível. Ou seja, o RWS não inventou a carta ilustrada; ele a ressuscitou e popularizou, transformando-a no molde que quase todo baralho moderno segue.[fonte]
Durante décadas Smith foi mal creditada, ofuscada pelo nome de Waite. Nomeá-la não é firula: é acerto histórico — e é a mesma imagem dela, hoje em domínio público, que ilustra as cartas aqui.
Fontes
- Dummett, M. (1980). The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Duckworth.
- Decker, R., Depaulis, T. & Dummett, M. (1996). A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. St. Martin's Press.
- Court de Gébelin, A. (1781). Le Monde primitif, vol. VIII.
- Farley, H. (2009). A Cultural History of Tarot: From Entertainment to Esotericism. I.B. Tauris.
- Moakley, G. (1966). The Tarot Cards Painted by Bonifacio Bembo for the Visconti-Sforza Family. New York Public Library.
- Kaplan, S. R. (1978). The Encyclopedia of Tarot, Vol. I. U.S. Games Systems.